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Mulheres no blockchain: um olhar sobre o desequilíbrio de gênero na indústria

Postado por em 25 de maio de 2018 , marcado como , , , , , , , , , , ,

Impulsionadas por uma exuberância utópica, as moedas virtuais e o blockchain destinavam-se a equalizar forças. No entanto, a triste verdade é que a atuação feminina está sub-representadas em posições de privilégio e poder, repetindo a costumeira disparidade presente nas indústrias tradicionais.

(Foto: Go.co)

Para as mulheres que tentam participar da corrida do ouro no ecossistema da tecnologia blockchain, é latente a falta de representatividade. Alguns estudos estimam que as mulheres representam apenas 4% a 6% dos investidores.

Ressaltar esse desequilíbrio é fundamental, visto que os primeiros dias de uma indústria representam o momento em que as fortunas são feitas – e os grandes vencedores então escolhem em que investir e o que construir em seguida, lançando uma cascata de consequências.

Um artigo publicado pelo jornal The New York Times, no começo desse ano, chamou a atenção para o advento do “blockchain Bros”, como uma das razões pelas quais as mulheres relutam em entrar no setor.

O anúncio da empresa DateCoin para atrair investidores para sua Oferta Inicial de Moedas – no qual aparece uma mulher reclinada em um maiô com textos sobre o seu corpo que dizia “Toque em minha ICO” – é um exemplo da falta de integração e atenção às mulheres desse ecossistema.

A North American Bitcoin Conference, realizada em janeiro, aumentou essa percepção dramática ao apresentar 84 palestrantes do sexo masculino contra três mulheres.

Alexia Bonatsos, investidora de capital de risco, clamou pela mobilização feminina, em seu twitter: “Mulheres, considerem as criptomoedas. Caso contrário os homens vão obter toda a riqueza novamente”.

 

“Satoshi é mulher!”

Com essas palavras a congressista de Nova York, Carolyn Maloney, reuniu uma multidão no dia 13 de maio no evento Woman on the Blockchain, onde mais de 300 pessoas se reuniram para falar sobre criptomoedas e a tecnologia que a respalda.

O evento aconteceu em um momento de tensão dentro da comunidade de criptomoedas, com estrelas do blockchain, como Elizabeth Stark, diretora executiva da Lightning Labs, pedindo aos entrevistados que parem de perguntar como é ser mulher no ecossistema cripto.

“Parem de marginalizar e escreva sobre o trabalho incrível que as mulheres estão fazendo”, twittou Stark em fevereiro.

Para a consultora de projetos e community builder da rede Women in Blockchain Brasil, Liliane Tie, a ausência de mulheres no ambiente da criptografia sempre foi uma constância. Em 2015, quando começou a frequentar reuniões e cursos de Bitcoin e Blockahin, muitas vezes ela era a única figura do sexo feminino presente.

“Por eu ser da área de tecnologia e sempre ter trabalhado mais com homens do que mulheres, de alguma forma, aquilo não me afetava tanto”, revelou Tie.

(Foto: techDiversity)

A aproximação com movimentos feministas e de inclusão social foi a mola propulsora para que Liliane Tie não só para demolisse ideias preconcebidas sobre a participação das mulheres nesse universo, como constituiu a base para a criação do movimento Women in Blockchain.

“O ‘aha moment’ mesmo veio quando uma amiga (Delza Carvalho, nossa community builder em Belo Horizonte) e eu estávamos num evento do ecossistema e que, de repente, lotou de homens de terno e gravata, a maioria da indústria de tecnologia e mercado financeiro. Talvez naquele dia, começamos o movimento Women In Blockchain, mobilizando primeiro nossas redes pessoais. Não demorou muito e mais mulheres começaram a se aproximar”.

Apesar da pouca representatividade feminina, Tie pondera que há muito interesse por parte das mulheres no tema, “Creio que à medida que elas forem se projetando no ecossistema, veremos mais rostos femininos nos eventos”.

Admirável mundo novo?

Brit Morin, uma empresária do Vale do Silício, realizou, recentemente, uma reunião de blockchain para mulheres. Os ingressos ficaram esgotados em apenas 1 hora. Após mudar para um local maior, com os ingressos mais uma vez esgotados, ela decidiu montar uma transmissão ao vivo, que contou com a presença de 16 mil espectadores.

“Temos a oportunidade de reconstruir os sistemas financeiros”, disse Morin. “As mulheres querem fazer parte disso”.

(Foto: Pixabay)

A questão da representatividade não se refere apenas àqueles grupos que não recebem seu quinhão, mas ao sucesso da empresa. A diversidade gera criatividade o que, por sua vez, leva à inovação.

Hayley McCool Smith, chefe de estratégia da Energi Mine em uma entrevista para a Cryptonewsreview, defendeu que explorar pontos de vista diversos significa poder enfrentar desafios e técnicas de uma maneira mais nítida e inovadora. Opinião corroborada por Liliane Tie, que ponderou:

“Quanto à organização [de eventos], não é regra, mas tenho percebido também que quando há mulheres na equipe, existe uma abertura maior para podermos agir de forma antecipada e construtiva”.

Acesso livre

Mesmo com poucos exemplos, o trabalho de coletivos com o propósito de incluir mais mulheres na tecnologia, cresce. A rede Women In Blockchain Brasil, desde o ano passado, tem promovido o blockchain de forma voluntária e colaborativa para o público feminino. E, ao falar mais especificamente das criptomoedas, há também o Cripto Mulheres.

A community builder da rede Women In Blockchain Brasil destacou ainda que todos as pessoas interessadas serão bem-vindos à comunidade. Sejam elas mulheres ou homens.

“O que pedimos é que conheçam o movimento #HeForShe da ONU Mulheres e se engajem também; levando a palavra principalmente até outros homens. Enquanto isso, nós mulheres, vamos fazendo a nossa parte. #WomenInBlockchainBr #correntedemulheres”, concluiu.